UM BALANÇO SOBRE O USO DO CONCEITO DE GEODIVERSIDADE NO CONTEXTO DA GEOGRAFIA FÍSICA
DOI:
https://doi.org/10.48025/ISSN2675-6900.v7n1.2026.443Palavras-chave:
Geodiversidade, Geoma, Ciência da PaisagemResumo
O artigo analisa o uso do conceito de geodiversidade no contexto da geografia física, discutindo sua consolidação recente como campo de debate associado à geoconservação. A partir de uma abordagem epistemológica e historiográfica, argumenta-se que o conceito emerge não como um novo paradigma, mas como uma construção discursiva situada, cuja difusão muitas vezes desconsidera contribuições anteriores da própria geografia. O trabalho problematiza a recorrente equivalência da literatura entre geodiversidade e biodiversidade, demonstrando que a diferença de concepção patrimonial entre as duas áreas invalida a equivalência dos conceitos. São discutidas também ambiguidades conceituais relacionadas à inclusão de elementos como água, clima e solos no escopo da geodiversidade, evidenciando limites teóricos e operacionais do conceito, tornando-o muito mais simplificador e menos explicativo do que o conceito de geoma, historicamente utilizado pela ciência da paisagem desde os estudos mais clássicos. Além disso, o artigo critica o uso de índices quantitativos simplificados e ressalta a influência do problema da escala na análise da diversidade abiótica das paisagens. Mesmo reconhecendo o papel da geoconservação no incremento da preocupação patrimonial da natureza, conclui-se pela necessidade de avançar com maior rigor conceitual sem, todavia, abandonar a fértil herança teórica e metodológica da geografia, na produção de abordagens integradoras que considerem a complexidade sistêmica da paisagem.
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